sexta-feira, 20 de agosto de 2021

ENTREVISTA: Tiago Cadó Fernandes

 

Educação e ações polínicas como

instrumentos de transformação

 




    A pandemia escancarou as carências nas escolas, mas o  ensino híbrido veio para ficar, pensa o professor de História e vereador Tiago Cadó Fernandes, 36 anos (foto arquivo pessoal). Docente concursado no ensino público estadual desde 2012,  ele defende a escola de tempo integral e chama a atenção que “absolutamente nenhum país desenvolveu-se até hoje sem uma educação de qualidade.”

      Apesar da sua juventude, Cadó já tem uma longa trajetória voltada para a educação. É formado em História pela URI Santiago e tem pós-graduação em História e Cultura Afro-brasileira sendo ainda pós graduado em Docência no Ensino Superior e MBA em Gestão Pública Municipal. Atualmente, cursa o oitavo semestre no curso de Direito também pela URI Santiago,

      Outra paixão, além do magistério, é a atividade política. Em 2012, Tiago Cadó recebeu 1.958 votos para vereador, sendo o parlamentar mais votado em São Borja. Em 2014 foi eleito suplente de deputado federal, recebendo 17.743 votos. Dois anos depois concorreu a vice-prefeito. Foi assessor parlamentar na Assembleia Legislativa gaúcha e, após,  secretário parlamentar na Câmara Federal. Em 2020, foi novamente eleito vereador em São Borja.

       O entrevistado do BlogAlberiCogo defende o fim da ‘grenalização’ política  no país. Entende que, assim como a educação, também a política é um dos principais instrumentos de transformação da sociedade.  Confira, a seguir, a entrevista.

 

Alberi Cogo - O senhor é professor de História e com formação acadêmica na área. Ser docente na disciplina nunca foi tarefa fácil. E como está sendo agora com aulas remotas ou no formato híbrido e com todas as demais  dificuldades impostas pela Covid?

Tiago Cadó - Ser professor no Brasil não é uma tarefa fácil. Tem toda a problemática de valorização da categoria, de perdas salariais e do desprestígio que a carreira tem sido impactada nos últimos anos e décadas. Mas a pandemia trouxe ainda mais problemas: expôs a falta de investimentos em tecnologia nas escolas, a falta de infraestrutura, a falta de materiais didáticos capazes e condizentes com todo o avanço do mundo da informática e da internet. Os professores foram desafiados a dar aulas por plataformas até então desconhecidas como o google meet, por exemplo, passaram quase que à condição de blogueiros para poder passar conteúdo e trocar conhecimento com os alunos. Mas penso que este novo desafio serviu também para que o Estado, nas três esferas de governo, reveja o investimento na área, aposte em novidades tecnológicas e veja o professor como parceiro, como um agente transformador e não apenas como folha de pagamento. Lógico que todos queremos salários dignos e decentes, mas a nossa reivindicação também é por escolas melhores, com mais infraestrutura, com mais tecnologia, com mais recursos e que a educação seja prioridade não apenas no discurso, mas na prática também.

 

AC -  Em que medida dá para trabalhar como conteúdo pedagógico todo esse ambiente de polêmicas em torno da pandemia?

TC - O ensino híbrido veio para ficar, penso eu. Não iremos abandonar as plataformas, os recursos da tecnologia. As aulas remotas com transmissão ao vivo são um avanço, mas hoje elas excluem uma boa parcela de alunos, porque estes não têm acesso aos meios para acompanhar. Portanto, é preciso dar mais suporte para os alunos e professores poderem utilizar melhor o sistema. Temos alunos que não têm comida em casa, quem dirá internet e computador para acompanhar as aulas. É preciso investimento de fato para que a educação crie pontes e inclua a todos e não estabeleça justamente o contrário.

 

AC - Mesmo antes do evento do Coronavírus, a educação de modo geral vinha com indicadores muitos ruins no Brasil, situação que, com a pandemia, só deve piorar. Qual é a sua projeção a respeito?

TC - Penso que há um total descompasso entre as prioridades dos governos. Nenhum país do mundo, veja bem, nenhum se desenvolveu sem que a educação sofresse uma verdadeira revolução no que tange a investimentos e prioridades. Nós precisamos acabar com a educação de meio turno nos próximos anos, avançando urgentemente para a educação de tempo integral. Temos hoje menos crianças em idade escolar do que há 20 ou 30 anos, porque a taxa de natalidade diminuiu. Portanto, precisamos adaptar as escolas para que as crianças entrem às 8 da manhã e saiam às 17 horas, ficando o dia todo na escola, recebendo alimentação, recuperando matérias, praticando esportes e investimento corretamente no setor. Sem isso, continuaremos com índices tímidos e com crescimento tecnológico baixo. Investir em educação é investir no futuro. 

 

AC -   Essa polarização política no país, hoje, tem chegado à sala de aula?  Como a nossa juventude reage a esta conjuntura?

TC - Essa polarização é danosa para o país em várias áreas. No setor cultural, na educação, na infraestrutura e até na saúde vemos a polarização prejudicar as pessoas. Até a pandemia foi politizada no país. Ao invés de ouvirem a ciência, ouviram políticos e charlatões. Chega! Precisamos, urgentemente, sair da ‘grenalização’ política que o Brasil vive, para que tenhamos paz e harmonia e voltemos a crescer enquanto povo e nação.

 

AC -   Na sua avaliação, o que explicaria essa polarização tão acirrada nos últimos anos?

TC - Eu atribuo isso à falta de discussão de ideias e projetos e a consequente idolatria de personagens. No campo A só o fulano salva. No campo B idem. Não pode ser assim. Precisamos discutir projetos e meios para buscar o caminho do desenvolvimento. Sem isso, a ‘grenalização’ continuará ceifando nosso desenvolvimento.

 

AC - A impressão que se tem é que, cada vez mais, estão surgindo menos lideranças entre as novas gerações. Qual a sua percepção a respeito e por quê?

TC – Isso, infelizmente, é verdade. Eu mesmo venho do movimento estudantil, do Grêmio da escola. Nossos jovens estão sendo vítimas dessa desilusão toda originada pelo disputa de vaidades, de egos e que passa a tentar desacreditar as instituições e isso é péssimo e danoso para o futuro do país, e atinge diretamente o florescer de novas lideranças que enxergam o cenário turbulento, desacreditado e comprometido. Precisamos mudar isso. Temos que ter compromisso com as novas gerações e isso passa por estancar essa sangria do descrédito da política e das instituições.

 

AC -   Como vereador, o senhor faz parte de uma instituição, a Câmara Municipal, que frequentemente recebe reprovações.  Elas são procedentes? O que o senhor mudaria no Legislativo como instrumento de representação popular?

TC - O Poder Legislativo é o para-choque da sociedade. É nele que chegam os problemas dos cidadãos e que se buscam os encaminhamentos de demandas. Por ser a classe política mais próxima dos cidadãos, os vereadores acabam muitas vezes não conseguindo resolver algumas questões que justamente não lhes competem por força constitucional, como por exemplo melhorar o atendimento na saúde, pavimentar ruas, geração de emprego e renda, etc. O que podemos mudar e fazer urgentemente é discutir alternativas de futuro, lutar por coisas que mudem a vida das pessoas, trabalhar por pautas coletivas, olhar pra frente com esperança e trazer a comunidade para o centro das discussões. As pessoas precisam ser parte do processo legislativo. Isso é urgente: a participação popular no Poder Legislativo.

 

AC - Que avaliação o senhor faz sobre o panorama político nacional?

TC - O Brasil precisa discutir mais ideias do que nomes. Que país queremos ter daqui a 20 anos? E essa discussão passa indistintamente pela política. É através da política que se resolvem as coisas. Desde o preço do pão na padaria (que tem a ver com dólar por causa do trigo e taxas de importação) até o salário mínimo (definido pelo presidente da República) e investimentos em educação, tudo, absolutamente tudo, passa pelos agentes políticos. Então, é preciso que não demonizemos a política, mas sim é preciso escolher melhor os nossos representantes e principalmente participar do processo continuamente.

 

AC -   Dá para mudar esse sistema  político patrimonialista, de  presidencialismo de coalizão, de carreirismo político? O que senhor mudaria?

TC - Nós precisamos acreditar sempre que dá para melhorar, que dá pra mudar, se não, não teria sentido nenhum participar da política e acreditar no futuro. Para mudar isso, é preciso fortalecer as instituições, trazer as pessoas para o debate e aumentar a participação popular através de orçamentos participativos, plebiscitos e consultas públicas.

 

AC -   Há algumas semanas, o senhor começou a coordenar um programa de rádio através da Fronteira FM. Conte sobre essa nova experiência.

TC - Eu sou um apaixonado pela imprensa. Acho fantástico o que os jornalistas fazem que é informar as pessoas, contar histórias e fomentar o debate. Nesse sentido, propus à URI Santiago que oportunizássemos o debate através de um programa de rádio, para falar de atualidades, bastidores da política e sobre temas fundamentais que estão no dia a dia da nossa gente. E deu certo. Está dando certo. Está sendo uma grande experiência que estou tendo juntamente com amigos como o Rafael Viga, Jorge Goulart, Maria Alice Souza, Jorge Pacheco e tantos convidados que têm nos trazido ricas e importantes informações. 

 

AC -   Quais são os planos de Tiago Cadó, especialmente no campo político?

TC - O meu plano é ver minha cidade melhor, com mais oportunidades para todos, mais democrática e participativa. Ver nossa região sair do atraso socioeconômico e da falta de oportunidades de crescimento. Eu quero ajudar nesse processo. Vou me empenhar para isso e dedicar minha forças e minha capacidade para que juntos possamos olhar para frente com esperança e voltar a sonhar com dias melhores.

Um comentário:

  1. Obrigado, professor. Uma honra para mim ser entrevistado pelo nobre amigo.

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